Minhas “Depressões pós parto”

3 de novembro de 2016

Este não é um assunto muito fácil, pensei muito antes de abordá-lo aqui, não por vergonha ou pré-conceito, mas por receio de amedrontar ou assustar as grávidas ou recém-mães que possam vir a ler este relato, mas refletindo melhor cheguei à conclusão que esse post pode servir de alerta para a seriedade do assunto e necessidade de busca por tratamento.

Antes de iniciar o texto devo esclarecer que não se trata de um artigo científico, e que por mais que alguém se identifique com alguns dos sintomas descritos a seguir, só um médico poderá diagnosticar se você tem depressão.

Decidi escrever da maneira que eu gostaria de ter lido um dia sobre depressão e não encontrei. Também pretendo esclarecer algo que sempre me perguntam: “O que você sentia quando estava com depressão?”

 

Primeira gravidez…

…tudo corria dentro do esperado, gravidez planejada, gestação tranquila sem nenhuma intercorrência.

Eu desejava muito parto normal, porém minha Luiza era um big baby media 54 cm e pesava 4,200 kg segundo meu obstetra não seria aconselhável tentarmos o parto normal (assunto discutível, mas não pretendo abordá-lo neste momento). Marcamos a cesariana para o dia 26 de fevereiro de 2004, fui para o hospital extremamente tranquila e feliz, apesar dos desconfortos inerentes ao final de gravidez eu me sentia muito bem, realizamos todos os trâmites burocráticos do hospital e fui para o quarto, vesti aquela roupinha charmosa que nos deixa com o traseiro a mostra e lá fui eu para sala se parto. Tudo estava perfeito! Meu médico pediu que eu me sentasse na maca, me abraçou para que eu ficasse imóvel e tranquila pois lá vinha a anestesia, no exato momento em que aquele líquido invadiu minha coluna e me deitaram na maca, começou meu pesadelo, senti um mal-estar muito grande, falta de ar sensação de desmaio que durou segundos mas parecia uma eternidade, até que algo foi aplicado pelo anestesista e aos poucos fui me sentindo melhor.

A cirurgia começou, já me sentia melhor, mas o mal-estar que senti havia me deixado um pouco tensa, aliás, quem não fica apreensivo dentro de um centro cirúrgico?  Sala fria, cheia de aparelhos e luzes por todos os lados. De repente, percebo que meu obstetra e sua assistente estavam encontrando dificuldades para retirar meu ”big baby (este foi o apelido que todos do hospital deram a minha filha por ser o maior bebê a nascer naquele dia, tadinha, já nasceu sofrendo bullying), ouço a conversa entre eles falando da necessidade de cortar mais 2cm de cada lado, fui ficando assustada. Era um puxa para lá, puxa para cá, a maca balançava e nada, então meu médico diz para o anestesista: “Você vai ter que entrar em ação”! E eu lá sabia o que significava ele entrar em ação?! Mas logo descobri, aquele homem imenso, meio ruivo que eu nunca tinha visto na vida, literalmente subiu em cima de mim e começou a empurrar minha barriga na altura do estômago, aí entrei em pânico! Passados alguns intermináveis minutos, eis que vejo minha bebê nascendo, só o que eu queria era ouvir seu chorinho e pegá-la em meus braços, mas infelizmente nada disso aconteceu, o silêncio pairava naquela sala gelada, até que percebi uma correria entre os médicos, aí meu mundo caiu de vez, o que estava acontecendo com a minha filha? De repente vem a pediatra dizendo: “Mãe sua bebê está com desconforto respiratório então vamos levá-la para a UTI, e levou minha bebê sem eu ter tocado nela. Fui vê-la pela primeira vez 36 horas depois, ela já estava estabilizada e bem.

Quem não estava bem era a mamãe aqui, que a essa altura já sentia uma tristeza enorme, mas até então eu imaginava que era por tudo que havia acontecido no momento do parto, que iria melhorar com o passar dos dias, mas a tristeza só piorava, fraqueza e desânimo tomam conta de mim, só sentia vontade chorar, minha bebê chorava eu chorava junto.

Vejam que ironia do destino, sou Psicóloga e estudei sobre depressão na faculdade, mas a teoria nem se compara a realidade. Tentando achar explicação para o que eu sentia, pensei que pudesse ser “Baby Blues“.

 

O que é o tal “Baby Blues” ou Blues Puerperal?

Nos primeiros dias depois do nascimento do bebê, é comum que a mãe se sinta irritada, triste e com vontade de chorar. É um fenômeno chamado blues puerperal, ou melancolia puerperal.

Mas afinal, o que eu sentia!

Tentando ser o mais claro possível, vou separar os sintomas em físicos e emocionais

Físicos – taquicardia, falta de ar, pressão no peito, sudorese, fraqueza, insônia e um cansaço fora do comum.

Emocionais – tristeza, angústia, vontade chorar, total falta de paz, inquietude, ansiedade e desespero.

Imagine algo muito triste que tenha acontecido na sua vida, imaginou? Agora pense nesse sentimento um milhão de vezes maior, seguido de todos os sintomas físicos que relatei acima, mais o fato de ter um bebê recém-nascido, que acorda para mamar de 2 em 2 horas dia e noite.

Eu não consigo mensurar o que era mais desesperador, se todos esses sentimentos juntos, ou se a culpa e o medo de nunca conseguir cuidar da minha filha. Ah! Ainda sentia muita pena quando olhava para ela, tão frágil com uma mãe que só queria morrer, sim, a cada amanhecer eu pensava porque eu acordei? Não vou suportar mais um dia! Não, não estou exagerando é de fato muito desesperador. É como se de repente o mundo tivesse ficado completamente cinza, nada mais fazia sentido, eu não conseguia conversar, assistir um programa, ler um livro, enfim, eu mal conseguia sentar, minha vontade era ficar andando de um lado para o outro, ou sair correndo sem rumo.

Foram quase dois meses assim, eu já não conseguia comer, tinha emagrecido os 10kg ganhos na gravidez e uns 6kg a mais (não, nem pense nisso, não, vale a pena voltar ao peso de antes tão rápido. Esse parêntese foi só para descontrair um pouco) foi então que minha família decidiu que iríamos procurar um médico. Como venho de uma família com histórico de depressão, (esse fator genético também influencia muito) a começar pela minha mãe que na época já tomava antidepressivo, procuramos o médico que havia tratado dela. Lembro como se fosse hoje, quando entrei na sala do Dr. Rubens e aos prantos só consegui dizer: “Me ajuda?! Isso vai passar?!” Segundo ele minha depressão estava tão severa, que estava a um passo de precisar de internação.

Logo na primeira consulta, ele chamou minha família e disse que eu teria que iniciar imediatamente o tratamento com antidepressivo, ansiolítico (calmante) e terapia, o único problema é que alguém precisaria cuidar da minha filha dia e noite, pois eu não iria ter condições, a princípio imaginei que ele estivesse exagerando, porque eu não iria conseguir cuidar da minha filha? Mas quando tomei os primeiros comprimidos tive certeza de que ele sabia muito bem o que estava falando, fiquei completamente prostrada na cama por dias, eu mal conseguia sentar para comer alguma coisa. Como minha mãe trabalhava na época, fui para a casa dos meus sogros que me acolheram com todo carinho, a Luiza ficou no quarto dos avós, lembro da minha sogra trazendo ela toda cheirosinha para ver a mamãe, e eu mal conseguia abrir os olhos. Foram 15 dias assim, praticamente em sonoterapia, passados esses dias fui começando a voltar para a vida, já não via o mundo tão cinza e conseguia olhar para minha filha sem sentir tanta pena dela e de mim.

Um mês depois a Luiza já veio para o meu quarto, eu já conseguia cuidar dela sozinha, mas continuamos nos meus sogros por mais 2 meses, até eu me sentir mais segura em voltar para casa. Segui com a terapia por 1 ano, e os remédios? Ah! Esses me acompanham até hoje, e não vejo nenhum problema nisso, muito pelo contrário, que bom que eles existem, afinal depressão-pós-parto ou qualquer tipo de depressão é uma doença séria, muitas vezes grave que se não for tratada pode levar a morte sim.

Por falar em doença, abaixo vou explicar bem resumidamente o que acontece com nosso organismo em caso de pressão:

A depressão é uma síndrome cujas reações no organismo são muito mais amplas do que as alterações de humor perceptíveis. Ela engloba desde a deficiência no nível de alguns neurotransmissores – serotonina, noradrenalina e dopamina – até alterações em níveis hormonais. Com menos “mensageiros”, a comunicação entre neurônios fica prejudicada e também a regulação das funções desses neurônios. A partir daí o corpo – e a mente – começam a adoecer.

Devido ao quadro depressivo, o hipotálamo – região cerebral que, entre outras funções, coordena a produção de hormônios em diferentes glândulas – estimula a produção em excesso de cortisol (conhecido como hormônio do estresse). Essa alteração ajuda a liberar fatores inflamatórios e a diminuir a capacidade imunológica do organismo. Por isso, os pacientes depressivos têm maiores chances de adoecer do que aqueles que não sofrem da doença. A depressão pode tornar-se crônica por conta da disfunção do cortisol. Nestes casos, quanto mais tempo demora para o paciente receber o tratamento correto, menores são as chances de sucesso.

É um assunto bem pesado, mas a boa notícia é que passa, se tratado corretamente a vida volta ao normal, aliás, costumo dizer que ninguém sai igual de uma depressão, saímos muito melhores, com outros valores.

Como relatei acima, continuo com a medicação até hoje, e provavelmente terei que continuar, isso não é o mais comum, principalmente em se tratando de depressão pós-parto, pesquisas apontam que na maioria dos casos a mulher se recupera totalmente e nunca mais precisa de medicação. Mas há casos, principalmente aqueles relacionados a hereditariedade, que a medicação passa a ser necessária, pois muitas vezes há um déficit no nível dos neurotransmissores – serotonina, noradrenalina e dopamina. Este é o meu caso, e só descobri após a quarta tentativa de tirar os medicamentos (importante ressaltar que fiz tudo sob rigoroso acompanhamento médico).

 

Segunda Gravidez…

Quando decidimos ter o segundo filho a primeira coisa que fiz foi buscar informações a respeito da medicação, já que praticamente todos os antidepressivos que temos no mercado são contraindicados durante a gestação. Como já trabalhei em Indústria Farmacêutica, sei que a maioria dos medicamentos são contraindicados durante a gestação e amamentação por falta de testes, já que dificilmente alguma gestante irá se submeter a algum teste desse tipo. Mas eu tinha a informação de que um determinado medicamento era liberado no Brasil pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e nos EUA pela FDA (Food and Drug Administration), ainda tinha duas amigas grávidas que tomavam esse medicamento, então fui me consultar com a obstetra delas, que lidava tranquilamente com essas questões, já que muitos médicos simplesmente se recusam a prescrever esse tipo de medicamento para gestantes.

Voltei da consulta muito animada e bem mais tranquila com a possibilidade de engravidar, apesar de ter que mudar o antidepressivo, estava muito otimista, tinha convicção de que não teria depressão pós-parto novamente, e que desta vez poderia curtir meu bebê, amamentar até ele não querer mais (esse sempre foi meu maior sonho, amamentar o máximo de tempo possível, e o tal medicamento também era compatível com a amamentação). Eu não podia estar mais feliz!

Alguns meses depois, veio a confirmação, eu estava grávida!!! Uhu!!! Não cabia em mim de tanta felicidade!

Assim como a primeira gravidez, foi tudo muito tranquilo, tirando o fato do meu bebê apressadinho resolver aparecer com 37 semanas, sem mala arrumada, faltando plaquinha para a porta da maternidade, lembrancinhas encomendadas mas com data de entrega prevista para as próximas duas semanas, data que estava agendada a cesariana… no dia 11 de Janeiro de 2015 meu baby Lucca veio ao mundo, bem menor que a irmã, tão cabelo quanto ela, mas em um parto muito mais tranquilo, consegui realizar o sonho de ouvir o chorinho dele, pegar todo sujinho nos meus braços e leva-lo para o meu quarto minutos depois, ufa!!! O pesadelo havia passado, agora era ir para casa curtir muito meu bebê.

O primeiro mês foi tranquilo, meu leite desceu, ele mamava bastante, e eu me sentia bem e realizada, achei que tinha vencido a depressão pós-parto, finalmente curtiria a maternidade em paz.

Até que um dia acordo me sentindo ansiosa, que estranho eu estava tão bem, de repente o ar parecia faltar, enquanto amamentava veio aquela taquicardia, comecei a suar, aquele conhecido mal-estar… meu Deus! Por que estou me sentindo assim?! Não é possível! Eu pensava, calma, respira, vais passar, e o ar não vinha, comecei a ficar nervosa, já não conseguia ficar sentada, entreguei o Lucca para minha mãe que estava passando uns dias em casa para me ajudar. Ao mesmo tempo que um pânico me invadia, eu tentava pensar positivo, não vou ter isso de novo, estou tomando remédio, mas não era o meu remédio, aquele que tinha me tirado do fundo do poço, quanto mais tentava me acalmar pior eu ficava… de repente cadê minha alegria? Minha paz? Aquela noite já não consegui dormir, no outro dia apesar de um sol lindo de verão eu enxergava tudo “cinza” de novo, embora não quisesse acreditar nem aceitar, eu estava com depressão pós-parto novamente, que pesadelo!

Eu precisava tomar uma atitude, voltar ao médico e retomar o tratamento com os meus remédios o mais rápido possível, mas esta decisão implicava em abrir mão de amamentar meu bebê, e o meu sonho da amamentação prolongada e feliz, mais uma vez acabaria ali. Por mais difícil que tenha sido abrir mão novamente de todos os meus sonhos de mãe, eu sabia onde aquilo iria me levar, e definitivamente não queria e não quero nunca mais voltar para aquele lugar!

Amamentei o Lucca pela última vez aos prantos, por precaução já tinha comprado mamadeira no enxoval, e também uma lata de leite (fórmula) para alguma emergência, deixei o Lucca com a minha mãe chamei o marido e lá fui eu para o médico.

Por mais que doa, as vezes precisamos tomar decisões difíceis na vida, eu tinha um bebê e uma filha, uma família para cuidar, precisava estar bem por mim e por eles, foi a melhor decisão que tomei, uma semana depois eu já me sentia melhor e aos poucos fui retomando minha vida.

Hoje tenho certeza de que devemos ir atrás dos nossos sonhos, mas também temos que aprender a aceitar quando é hora de deixá-los no meio do caminho e reinventar a nossa história.

Espero de coração que este meu relato possa ajudar algumas mães que infelizmente estão passando por essa situação, ou virão a passar. Se você leu esse post e está grávida, ou acabou de ter um bebê, não se assuste nem pense que vai acontecer com você.

 

Para finalizar, gostaria de deixar alguns recadinhos:

·    Depressão é uma doença, diferente de “baby blues” que passa em alguns dias, a depressão precisa de tratamento médico!

·    Não tenha pré-conceito contra medicamentos antidepressivos, eles existem para nos trazer de volta à vida!

·    Depressão, não é frescura!

·    Nunca diga para uma pessoa com depressão que ela precisa reagir, ser forte, dar a volta por cima… sem ajuda médica é muito difícil sair dela, em alguns casos é impossível!

·    Nunca diga para uma mãe com depressão pós-parto que ela tem todos os motivos para estar feliz porque tem um bebê lindo…

·    Se você está passando por esta situação, não permita que as pessoas lhe digam isso, você não tem culpa de estar se sentindo assim!

·    Peça ajuda, e principalmente aceite ajuda!

·    E por último, tenha a certeza de que vai passar!

 

Grande beijo, e se precisar estou aqui!

 

Débora Bertoldi

 

 

 

 

 

 

3 comentários

3 respostas para “Minhas “Depressões pós parto””

  1. Sarah Rainer disse:

    Adorei o blog, meus parabens!!

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